A fé, a verdade e o real

A fé, a verdade e o real

O que segue é um conjunto articulado de pequenos plágios que culminam em um grande plágio. Por uma razão muito simples: toda idéia filosófica é um plágio. Que se saiba que não reivindico, nem aqui e nem em nada que escrevo, qualquer originalidade. Portanto, me poupo o trabalho de apontar fontes. Um leitor informado as reconhecerá. Também serei sintético, objetivo e esquemático, pois estou ficando velho e minha paciência para encher lingüiça diminui em função do quadrado do tempo. Também tentarei ser simples, e sacrificarei um pouquinho apenas a precisão.

 

A verdade é algo que se diz. Que se a diga, pressupõe não só o quem a diz, o a quem ela é dita mas também o algo sobre o que se a diz, seu objeto. Que a verdade seja uma pessoa implica em: ou o o que diz essa pessoa, ou o o que quem me diz sobre tal pessoa. Portanto, mais uma vez, a verdade pressupõe o dito.

O dizer pressupõe a linguagem. A linguagem é feita de duas coisas: seus elementos constituintes mínimos, e as regras que os articulam. O dizer, portanto a articulação dos elementos constituintes da linguagem segundo suas regras, não implica em verdade, mas em sentido. Em outras palavras, o sentido não é sinônimo de verdade. O sentido se vende ao kilo, ou ainda ao kilobyte. A verdade é gratuita, mas agulha no palheiro.

O real é o impossível de dizer. O que não quer dizer que não se diga algo sobre o real. Quer dizer simplesmente que jamais se diz o real. E ao dizer algo sobre o real, o real se esvanece no dito, permanecendo em si como tal.

A fé é crer no dito, e não no real. Se o dito pretende ser a verdade sobre o real, a fé não quer dizer crer no real, mas crer no dito sobre o real. A experiência direta do real é impossível. Esta é sempre mediada ou pela linguagem, ou pelos afetos. Da primeira experiência deriva a episteme, isto é, a ciência. Do segundo caso deriva a religião.

Religião não é fé. Estar em sintonia com a grande mãe terra em um ritual para invocar os poderes fecundadores da terra não é fé e não pressupõe fé, pois não pressupõe o dito. Pressupõe uma experiência afetiva do real.

No entanto nem sempre o dizer é um dizer sobre o real. O objeto do dizer pode ser o próprio dizer. Por isso o cristianismo (e o judaísmo e o islamismo) não é uma religião, mas fé. Quem crê, crê no que foi dito sobre o que foi dito - além disso não há dizer, pois Deus (Teon, YHWH ou Alah) é ateu. E também não é ciência, pois esta é dizer sobre o real. Posso ter fé no dizer da física sem verificá-lo. Mas posso verificá-lo. Posso também ter fé no dizer de Paulo, mas não posso verificá-lo, ao menos não se não for da vontade d´Aquele que diz o que Paulo diz que Ele disse.

O real, exceto nas verdadeiras religiões como o hinduísmo, por exemplo, não é Deus. Se Deus é o real, então a ciência e a religião se casam, como ocorre entre o hinduísmo e a física, frequentemente. O lado simbólico e o lado imaginário (afetivo) da mesma moeda. Na fé judaico-cristã-islâmica, Deus é ex-machina. Não é o real. O real é a maquina, mas não exatamente…

A verdade, portanto, é para a ciência, bem-dizer o real. Para a religião não está em questão a verdade, pois não se fundamenta no dizer. Já para a fé, é bem-dizer a palavra.

A filosofia, os livros e as universidades só atrapalham, pois embolam tudo em uma miríade de conceitos infinitos e reinvenções da roda que tornam o campo um pântano. Nesse pântano, um se perde e atola muito facilmente. Ler demais emburrece.

A burrice é acreditar que as palavras são as coisas.

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