O sofrimento como condição divina na figura do servo vetero-testamentário

E disse-lhe YAHWEH: Esta é a terra que jurei a Abraão, Isaque, e Jacó, dizendo: Å tua descendência a darei; eu te faço vê-la com os teus olhos, porém lá não passarás. Assim morreu ali Moisés, servo de YAHWEH, na terra de Moabe, conforme a palavra de YAHWEH.”  Deuteronômio 34: 4 e 5

O sofrimento como condição própria do homem é uma realidade muito particular de nosso gênero, no entanto, alguns enebriado por mensagens recompensante acreditam que este – o sofrimento – não faz parte da vida de um homem denominado: servo de Deus. Mas parece, que a luz da revelação judaico-cristã não é bem assim, pelo menos no material chamado “bíblia”.

O “Torah” ou simplesmente “Lei” é uma divisão da bíblia que corresponde aos 5 primeiro livros, que dizem respeito aos escritos de Moisés. A tradição cristã seguiu com esta mesma crença, da autoria de Moisés durante um bom tempo, principalmente enquanto a crítica bíblica existiu enquanto apologética, ou seja, ela não atacava os textos no intuito de buscar uma verdade objetiva deles. Nos primórdios estes livro eram sagrados demais para serem violadas desta maneira e ainda mais que o Cristo validou a autoria mosaica segundo os textos evangélicos.

As narrativas existentes nestes livros contam basicamente , num primeiro momento, as origens. Embora os livros não tenham esta função específica, num sentido restrito, ele assim o fazem e uma coisa clara em um deste livros é a origem do sofrimento. No primeiro livro, o “Gênesis”, a criação é narrada bem como a queda subsequente do homem. No capítulo 3, fica bem claro que o responsável pelos “abrolhos e espinhos” é o Pecado humano.

Ainda na busca das origens, Moisés – considerando-o como autor – mostra o resultado da queda sempre apontado para questão bem específicas desta, mostrado como o pecado seguiu produzindo consequências entre elas o a sua principal: o fastamento de Deus. Mas também a sua secundária: o sofrimento. Este então representa uma via dupla, porque é consequência do pecado, mas também retorno a Deus sendo justa medida no arrependimento.

O sofrimento se apresenta então como um peso na condição de servidão a Deus, algo necessário nas figuras apresentadas na narrativa mosaica como escolhidos. O que não é surpreendente se pensarmos que o sofrimento é determinação, preço, consequência divina e portanto, violar tal condição, seria também um ato de rebelião – por parte os homens – e contradição divina.

Se posteriormente olharmos a história dos patriarca veremos sempre esta imagem de sofrimento acompanhando a predileção divina. E nisto temos talvez a tipificação maior: José do Egito. A história deste personagem, em diversos aspectos de uma analise minuciosa, apresenta o sofrimento como uma ferramento onde Deus cumpre sua vontade soberanamente. Diversos personagens das histórias bíblicas serão marcados pela soberania divina impressa no sofrimento, e apesar de toda sua significação para a ideia que queremos apresentar, José será reservado ara uma outra reflexão, um pouco mais específica.

O autor da Torah é o exemplo que gostaria de tomar como uma vida de servidão sendo uma vida marcada pelo sofrimento. Moisés teve um história cercada de sofrimento e milagres, necessariamente uma história guiada pela vontade de Deus, mas que no seu inicio já apresenta dores que marcariam toda sua vida.

Moisés nasce sob o sofrimento quando levamos m consideração o contexto histórico onde seu nascimento s deu: a “opressão”. Isto quer dizer que ele nasceu num tempo onde os hebreus estavam sob a escravidão egípcia, os 4 séculos de sofrimento israelita. O garoto mal havia chegado ao mundo e já experimentou a incerteza, quando confiando na provisão divina, sob uma determinação de morte, lança seu filho nas águas.

É bem interessante como a infância de Moisés é celebrada no seu acolhimento pela princesa do Egito, tal qual a glória de um triatleta anula o sofrimento envolvido no seu preparo. É simplesmente ignorado o fato de que um bebe teve que além da privação materna, experimentar também um ambiente cruel e desolado, no desconforto de uma cesta. Nem mesmo Míriam o acompanhando de longe tornaria semelhante situação confortante. O petiz ao léu representa mito mais do que uma flecha com alvo certo, é uma figuração do homem e seu caminho até a vontade de Deus, dos caminhos que este enfrenta até o início do caminho determinado que tem como fim simples instrumentalidade do escolhido.

Sua vida fora divida em ciclos de 40 anos, em todos o sofrimento esteve presente bem como a soberania de Deus. Quase associados, hora separados por mera causalidade. O sofrimento na vida de Moisés era um selo da sua ligação a Deus que o tira da condição normativa dos homens e o lança no cominho da santificação, onde Deus por vias do sofrimento do servo, anula ele tudo o que não é Deus, para sim ser Deus absoluto no instrumento e este, ser eficazmente instrumento.

Depois décadas de toda sorte de sofrimento e sacrifícios, Moisés fica privado do prêmio. Aqui está a sua maior glória: seu inglório prêmio. Moisés não só não entra na terra prometida aos seus ancestrais como morre longe do convívio de seu povo, desolado. O sofrimento tem então seu maior significado, o preço pago por Moisés para ser o maior homem da história judaica. O sofrimento como condição divina na figura do servo é destacado na história do libertador dos hebreus, por quem a aliança sinaítica figurou, o canal da “Lei de Deus”, o sumo profeta de Israel a quem viu Deus “face a face”.

A fé, a verdade e o real

A fé, a verdade e o real

O que segue é um conjunto articulado de pequenos plágios que culminam em um grande plágio. Por uma razão muito simples: toda idéia filosófica é um plágio. Que se saiba que não reivindico, nem aqui e nem em nada que escrevo, qualquer originalidade. Portanto, me poupo o trabalho de apontar fontes. Um leitor informado as reconhecerá. Também serei sintético, objetivo e esquemático, pois estou ficando velho e minha paciência para encher lingüiça diminui em função do quadrado do tempo. Também tentarei ser simples, e sacrificarei um pouquinho apenas a precisão.

 

A verdade é algo que se diz. Que se a diga, pressupõe não só o quem a diz, o a quem ela é dita mas também o algo sobre o que se a diz, seu objeto. Que a verdade seja uma pessoa implica em: ou o o que diz essa pessoa, ou o o que quem me diz sobre tal pessoa. Portanto, mais uma vez, a verdade pressupõe o dito.

O dizer pressupõe a linguagem. A linguagem é feita de duas coisas: seus elementos constituintes mínimos, e as regras que os articulam. O dizer, portanto a articulação dos elementos constituintes da linguagem segundo suas regras, não implica em verdade, mas em sentido. Em outras palavras, o sentido não é sinônimo de verdade. O sentido se vende ao kilo, ou ainda ao kilobyte. A verdade é gratuita, mas agulha no palheiro.

O real é o impossível de dizer. O que não quer dizer que não se diga algo sobre o real. Quer dizer simplesmente que jamais se diz o real. E ao dizer algo sobre o real, o real se esvanece no dito, permanecendo em si como tal.

A fé é crer no dito, e não no real. Se o dito pretende ser a verdade sobre o real, a fé não quer dizer crer no real, mas crer no dito sobre o real. A experiência direta do real é impossível. Esta é sempre mediada ou pela linguagem, ou pelos afetos. Da primeira experiência deriva a episteme, isto é, a ciência. Do segundo caso deriva a religião.

Religião não é fé. Estar em sintonia com a grande mãe terra em um ritual para invocar os poderes fecundadores da terra não é fé e não pressupõe fé, pois não pressupõe o dito. Pressupõe uma experiência afetiva do real.

No entanto nem sempre o dizer é um dizer sobre o real. O objeto do dizer pode ser o próprio dizer. Por isso o cristianismo (e o judaísmo e o islamismo) não é uma religião, mas fé. Quem crê, crê no que foi dito sobre o que foi dito - além disso não há dizer, pois Deus (Teon, YHWH ou Alah) é ateu. E também não é ciência, pois esta é dizer sobre o real. Posso ter fé no dizer da física sem verificá-lo. Mas posso verificá-lo. Posso também ter fé no dizer de Paulo, mas não posso verificá-lo, ao menos não se não for da vontade d´Aquele que diz o que Paulo diz que Ele disse.

O real, exceto nas verdadeiras religiões como o hinduísmo, por exemplo, não é Deus. Se Deus é o real, então a ciência e a religião se casam, como ocorre entre o hinduísmo e a física, frequentemente. O lado simbólico e o lado imaginário (afetivo) da mesma moeda. Na fé judaico-cristã-islâmica, Deus é ex-machina. Não é o real. O real é a maquina, mas não exatamente…

A verdade, portanto, é para a ciência, bem-dizer o real. Para a religião não está em questão a verdade, pois não se fundamenta no dizer. Já para a fé, é bem-dizer a palavra.

A filosofia, os livros e as universidades só atrapalham, pois embolam tudo em uma miríade de conceitos infinitos e reinvenções da roda que tornam o campo um pântano. Nesse pântano, um se perde e atola muito facilmente. Ler demais emburrece.

A burrice é acreditar que as palavras são as coisas.

Em tese, a verdade é inegociável

Mas na prática, sabemos que a coisa não é assim simples. No entanto, chamo sua atenção para duas coisas: a primeira delas, é que a frase que usei e de onde saiu o termo verdade, não é minha, mas do falecido Sr. Carol Wojtyla, mais conhecido como Papa João Paulo II, em sua epístola ”Fides et Ratio”. Em segundo lugar, de fato, que o espírito se eleve com essas duas asas, “fé e razão”, é um ideal que já supõe uma certa noção de verdade, e um certo uso da razão.

Acrescento que apesar de ser pleno de sentido para você coisas como “o sentimento é uma interpretação racional das emoções”, isso simplesmente não significa nada para mim… não vejo o que você vê, ou como você, ou até mesmo o que você quer dizer. Não vejo o que há de racional, seja em um sentimento, seja em uma emoção. E muito menos vejo a fé como um sentimento…

Quanto à verdade… Bem, é verdade… existem maneiras diversas de se encarar a verdade, o que depende da “razão” que se usa. Para a razão epistemológica, por exemplo, o conceito aristotélico/tomista de “correspondentia intellectus res” serve bem. O conceito de verdade como uma “pessoa”… juro que não consigo assimilar muito bem, a menos que sobre isso se fale, mais ainda… e aí, recaímos na idéia da verdade como não-toda, pois sempre há o que se dizer. Que a pessoa em questão seja o alpha e o ômega, ok… Mas o problema é tudo que há entre um e outro, no caso.

Enfim, a etimologia de um termo não é nem a definição do termo, nem a última palavra sobre ele… Lhe devolvo a pergunta… para sua razão existencial, o que é a verdade? Porque, para mim, que penso pelas vias da razão epistêmica, da lógica e da ciência, é uma coisa bem clara, e tem seu núcleo no que evoquei acima de Aristóteles e que torna relativamente fácil distinguí-la do não verdadeiro…

Aguardo…

Este “negócio” chamado verdade

“Contemplação da verdade” – Gostei desta sua frase.  Diria até que filosóficamente remente a experiência cristã. E ao contrário do que eu mesmo posso ter transparecido até aqui neste blog, apesar de todo o sentimento – sendo a fé um deles – nunca foi perdido o norte de que o sentimento é também entendimento, já que o sentimento é a interpretação racional das emoções. Contemplar a verdade cristã então, na fé, é unir a paixão e razão.

Só gostaria de lembrar que o grande problema de pilatos foi que a verdade não era um conceito, por isto ele não fora respondido, a verdade naquele caso nos remete ao fato de que na mensagem cristã a verdade é uma pessoa. Mas acho que isto pode ser um problema se pensarmos o que realmente o termo verdade quer dizer, seria por exemplo a não-contradição? A descrição precisa de algo? a ausência de fantasia? Factualidade?

17 séculos de casamento com a cultura grega pode ter levado a cristandade a se equivocar com esta palavrinha: verdade (do latim- veritas; do grego Alethéia). Então faço a mesma pergunta de pilatos: “O que é a verdade?”

Razão e fé: o que esperar? (11)

Meu caro!

Bom tê-lo de volta. Já estava começando a pensar que eu era “o cara”, perigosa tentação para a razão, por me faltar o interlocutor que me permite ver a justa medida.

Em primeiro lugar, peço-lhe que veja os 7 pontos que destaquei do seu último artigo sobre a resiliência do cristianismo, que estão nos comentários ao post, e onde acredito eu ter destacado algumas coisas que merecem alguma atenção.

Em segundo lugar, estive pensando: me parece que “razão e fé: é possível o diálogo?” já foi respondido. E a resposta foi positiva, simplesmente porque dialogamos. E se dialogamos, é porque o diálogo é possível. Então, me parece ser a hora de dar um passo avante e organizar as coisas.

Imaginei a razão e a fé como duas velhas senhoras. E aí segui imaginando que as duas se encontram, e derrepente me pergunto: o que a razão poderia dizer ou perguntar à fé? Do mesmo modo, o que a fé poderia dizer ou perguntar à razão? Poderiam as duas realmente se fazerem asas para elevar o espírito à contemplação da verdade?

Mas aí vejo que nesse ideal há um “ideal”. Em outros termos, até que ponto uma é necessária à outra? Para que? Por que?

Enfim, creio serem essas as perguntas que devemos nos colocar, antes de partirmos para temas específicos.

Também pensei um pouco sobre o quanto insististes a respeito da relação entre a fé e o que chamastes de “coração”. Não reproduzo toda a problemática do termo. Faço de conta que está tudo ok. O coração é isso que você diz. Mas aí, então, me parece que para você duas coisas são certas: o homem é essencialmente (você fala de “centro”, mas é a mesma coisa) sentimento, e a fé é sentimento. Essas duas coisas não me descem bem… Na verdade, não me descem nem um pouco. Não vejo o “sentimento” como a essência humana, e muito menos a fé como um sentimento…

Mas antes de prosseguir, aguardo suas considerações…

Cristianismo: resiliência religiosa

Cristianismo: resiliência religiosa

Quando nos defrontamos com a incerteza temporal do porvir e com a resignação imposta pela natureza, acreditamos por certo que existem barreiras e limites para tudo que existe. Estas se dão evidentemente no aspecto puramente material, como para o progresso da ciência e o desenvolvimento do homem, e assim, não há porque não imaginar que também haja um limite para a religião. Parece bem paradoxal estabelecer que algo que trata do ilimitado se mova dentro de um limite. Mas antropologicamente, a religião como prática cultural, tem um limite. A religiosidade por vezes é vista como um fenômeno da cultura, própria do que caracteriza a humanidade. E como culturas se findam, a religião tende a se findar com elas. Por ventura hoje freqüentamos o culto a Isis? Ou há cruzadas “evangelísticas” para converter os que não seguem a Astarote? Não. Então as religiões acabam, como línguas e costumes. Só que outra questão vem à tona: porque ainda existe a religião de uma maneira geral?

Uma coisa que a história do homem tem demonstrado é justamente algo oposto a todos estes conceitos anteriormente apresentados, a esta idéia de que uma religião só tem a possibilidade de existir dentro da cultura a qual ela nasceu. Uma coisa que a história da humanidade demonstra é que o homem e tudo o que diz respeito a ele, como a religião, tem sumamente vivido um constante processo de resiliência. A superação humana tem sido demonstrada frente a todos os limites impostos, e assim vemos o caminhar vitorioso de nossa espécie – apesar de contra a vontade da natureza – junto a tudo aquilo que nos diz respeito, que dá sentindo a nossa existência.

A resiliência em si mesmo já é superação, já que tantas divergências existem na configuração conceitual deste termo. Mas uma coisa é certa: não há qualquer chance de que a resiliência seja emblematicamente transformada em uma forma fechada de entendimento, se a superação - quiçá “ressurreição” – não estiver presente, não é resiliente o entendimento.

A religião é outro termo problemático, já que em uma perspectiva pluralista, qualquer coisa é religiosidade, desde comprar um “duende” de epóxi até tomar um banho de cachoeira nu. Se definirmos religião como tal, ou seja, qualquer coisa da ordem da crença, então a própria religião cai, porque em si mesma a religião é uma apresentação de possibilidade de “religarmo-nos” a um princípio primeiro, a uma verdade única. Nisto consiste estes sistemas de crenças que nos rodearam durante toda nossa breve história neste planeta: uma grande busca pela verdade, que só é abandonada pela vaidade de não conseguir alcançá-la através própria capacidade.

Mas a religião como traço cultural, como se encaixa na resiliência como conceito aplicado ao humano? Não se encaixa! Quem se transforma promovendo a posterioridade existencial é o homem, sujeito. A tendência natural é que realmente a religião tenha um fim comum à cultura da qual ele se originou ou a qual ela originou. Um exemplo histórico disto, bastante conhecido é a da religião egípcia, já apresentada acima na alusão feita a uma de suas divindades mais cultuadas. Mesmo sendo popularmente, em um universo henoteísta, uma religião destacável, ao findar da supremacia cultural faraônica, juntamente com ela sucumbiu e desapareceu sua religião, não deixando apenas os mistérios e referência breves de seu culto. Se pensarmos de maneira um pouco fatalista, nem sequer podemos considerar como restolho a sua  atividade neste planeta como influência em religiões posteriores. E em um explanar histórico mais profundo podemos ver também outros grandes pilares religiosos que desapareceram simplesmente ao fim da cultura que os sustentava. Então não existiria possibilidade de uma religiosidade resiliente?

Se há a possibilidade de uma religião ser resiliente, esta deve ser transcultural, com uma natureza particular e extremamente humanista. A única religião que converte todas as expectativas neste sentido é o cristianismo. Esta visão religiosa fundada pelo rabino galileu do século I e postergada pelos discípulos deste, a religião de Jesus de Nazaré, chamado o Cristo, foi identificada pelos judeus, povo da qual se originou, como uma seita de cunho herético e infame, que deveria ser extirpada, totalmente aniquilada porque trazia problemas à realidade de entendimento religioso do judaísmo. Esta nova visão religiosa também era um problema social para os romanos, sendo perseguida e tendo seus fiéis executados em escalas genocídicas. Se há uma religião que em sua história tem uma trajetória totalmente resiliente, esta é o cristianismo.

Desde os seus primórdios, este movimento que surgiu na palestina em meados do ano 30 A.D. sofre todo tipo de sanções e barreiras, a começar pela morte de seu líder, crucificado pelo poder romano. Este ato, maior de todos na história cristã, chamado de “a paixão”, tem em si já uma base maior que qualquer possibilidade resiliente. O morto da cruz elevou o significado de resiliência humana à máxima potência: ele superou a morte, ressuscitou ao terceiro dia. A maior barreira humana, na verdade a maior barreira de tudo que é matéria, o fim, agora superado. Sendo assim, vencer a inevitabilidade da morte, a certeza do fim, é ser de verdade resiliência pura. Este ato foi e tem sido o estandarte ideológico do cristianismo através da história, história esta marcada pela superação e resiliência.

Mas a resiliência no cristianismo não se traduz só como uma metáfora teológica, sua prática e vivência sempre é marcada por tal conceito, sua história grita isto. Os primeiros cristãos, vítimas de terríveis perseguições a todo o momento enfrentavam barreiras intransponíveis, e a necessidade de superação era a idéia de apenas sobreviver a tudo aquilo para que o ideal de Cristo pudesse postergar à próxima geração, e a esperança da vinda da glória os norteava neste processo extremo de superação. Assim enfrentavam mortes brutais, perseguições cruentas e a total exclusão social.

Logo, em uma visão simplista, para esta visão religiosa que estava fadada ao fim, como resistiu em um contexto como o que se apresentava? Resistiu. Seu final não fora o que se previu. Muito pelo contrário, esta visão religiosa cada vez cresceu mais em meio a todo o horror enfrentado e veio a se tornar depois a religião mundial, tendo uma idade histórica.

Estes ecos do passado por diversas vezes se apresentaram no cristianismo, talvez não como repetição, mas como resonidos de uma música antiga. Hoje a perseguição ainda se dá. A partir do ideal iluminista, a perseguição à fé se dá sob o véu da verdade científica, que falaciosamente é uma inversão bizarra da teologia cristã. A perseguição de hoje é sutil e mais feroz, já que se utiliza se justificativas plausíveis, ou seja, se justifica, e sob a perspectiva de tolerância, fazem do cristianismo e seus fiéis remanescentemente cristãos vítimas da intolerância. Mas resilientemente, a mensagem de Jesus de Nazaré permanece.

Assim tem sido a história da mensagem daquele carpinteiro judeu do século I, aclamado como o salvador de todos os homens e assim anunciado há vinte séculos. Assim tem sido a história desta religião que mais tarde fora conhecida e espalhada aos quatro cantos como “cristianismo”, com um passado de atroses perseguições e toda forma de ultrajes pelos de fora, e que posteriormente também sofreria com os que tentaram modificá-la afirmando serem de dentro. Após isto tudo, já fora dividida, restaurada, perseguida, anunciada e agora perseguida pelos perseguidos e ainda assim viva, grande e acima de tudo: resiliente.

Em uma breve síntese neste caminho reflexivo que fizemos, diríamos que ficou percebido que muito mais do que um traço cultural que define o ser humano na história, quiçá o homem define a cultura. Esta é uma forma de expressão daquilo que nos traduz em humanos, nossa forma de lidar com aquilo que entendemos por existência. Também não poderíamos seguir um caminho reflexivo e pensar na cultura definindo também a religião ou sendo a única causa desta. A cultura não pode definir a religião, no máximo forneceria subterfúgios para sua existência nela, nem o conceito de religião em uma visão bem aprofundada pode explicar o cristianismo. Ambos, o homem e o cristianismo, seguem seu curso sem previsão, indefiníveis, mutáveis, essenciais e com chegada definida, resilientes e sobreviventes.

Conhecimento Perigoso

Coloco aqui os links, em alternativas diversas, para o documentário Conhecimento Perigoso (Dangerous Knowledge), produzido pela BBC.

O documentário conta a estória de quatro mentes brilhantes, quatro matemáticos da virada do penúltimo século que, ao enveredarem pelos limites da lógica e da razão, não só trouxeram sobre si a hostilidade de seus contemporâneos, como também a loucura ou o suicídio.

No limite, o que teriam eles visto? O que teriam intuído? E porque isso que viram ou intuíram ao extremo da razão trouxe sobre eles uma sina assim fatal?

Não se aprenderá matemática com esse documentário. Muito menos é necessário algum conhecimento de matemática para acompanhar o documentário. Ele se foca muito mais no aspecto humano e histórico da questão, e por isso mesmo me parece bem pertinente ao que discutimos aqui.

Infelizmente, no YouTube não encontrei o documentário com legendas. Portanto, convém que se saiba inglês. No entanto, uma matemática que mantém um blog sobre matemática disponibilizou os vídeos em seu blog com legendas, mas a “velocidade” de carregamento é um pouco pior que no YouTube. Então, que o leitor aprecie:

No YouTube, a primeira parte é essa (siga os links do YouTube para assistir até a última parte, a décima):

No blog da senhorita Mayra Clara, além de uma melhor introdução ao documentário, se pode assistí-lo com legendas. O link é:

http://www.mayraclara.mat.br/videos/doc/conhecimento/conhecimento.html

Altamente recomendado aos que mantém e aos que acompanham esse blog!